27 de janeiro de 2013

Redacções


Introdução

“Que hei-de eu fazer, eu tão nova e desamparada quando o amor me entra de repente p’la porta da frente e fica a porta escancarada” (“Às vezes o amor” – Sérgio Godinho)

Desenvolvimento

Não quero mais das manhãs que a tua almofada amarfanhada de reviravoltas, lutas de um guerreiro de boné a três quartos, de punhos cerrados e gritos da discórdia entre berlindes e Playmobil. Pousa a cabeça no meu peito. Respira fundo. Acorda devagar, abre os olhos devagar. Que este mundo girou. Tem lâminas de barbear, sapatos bem engraxados e gravatas aprumadas. Não saímos daqui. Podemos fazer uma tenda de lençóis. Damos as mãos num pacto secreto. Juro. Os meus dedos conhecem o labirinto do teu cabelo tortuoso, viajam enquanto te olho e atento que esse mundo é ainda maior que este. Cabemos nós e os outros, a paciência e as virtudes dos inocentes. Cabem sonhos inteiros aquém Tejo. O tumulto, os fantasmas de ser grande já amanhã, ou ainda hoje. Ainda não. Não largues a minha mão durante a viagem. Que a vida vai bater-nos de frente, com força. Sem preparações. Sem colete à prova de balas. A viagem vai doer, tirar-nos as certezas, atirar-nos à rua, sem aspas. Abriga o teu verbo ser no meu coração.

Conclusão

Gosto de ti. Às vezes é fácil e outras difícil. Pesar o globo pelo verde dos teus olhos.


29 de novembro de 2012

Ainda não temos fotografias


Deixaste os ecos das gargalhadas em algum azulejo da cozinha, onde te quis prender com o cheiro do pimentão doce. Espero que saibas que não gosto de cozinhar. Gosto só que alguma parte do teu dia fique a meu cargo. Tenho por hábito observar-te as introspecções. E tu finges tão mal que não sabes que estou a olhar. Não te preocupes porque eu não sei mesmo no que pensas. Estás detido lá longe numa das tuas inúmeras vidas paralelas. Não gosto. Eu quero interceptar pelo menos uma porque tenho para mim que esse ponto me dá um sentido à vida. Um novo. Que não precise de indicações da razão. Às vezes dou-te a mão e sei que podia levar-nos onde tu quisesses. Que o que cabe no verde dos teus olhos é tudo aquilo que diz que sim à verdade. Estou cheia de certezas tolas... E eu juro que não sabia. E não quis. Não apareci de propósito, não engendrei um plano. Mas desejei que me ouvisses uma vez e que decidisses que podias gostar um bocadinho de mim. Temi que o miúdo que conheci, de cabelo à banda, vizinho de comboios, fosse o que todos pensavam saber. Mas quis fazer parte da tua minoria. Vota em mim. Eu prometo que vou fazer o melhor que puder. Mesmo quando o nosso entendimento não molda a mesma ideia e ficamos em silêncio, juntos, mas sem união. E quando o tempo não nos concede mais que momentos dispersos. 
Vou agarrar neles e colar uma fotografia bonita. 

23 de dezembro de 2011

““Vou fazer algo inédito” disseste tu...”

E fiz. Disse que sim. Que podíamos ser dois a pensar o mesmo. A ter ideias, a discutir mundos, a rir do tempo. Deste tempo de brevidades. E foi de repente. Como as revoluções. Feito de causas e ímpetos. Que as rotinas corroem o pouco de humanos que temos. Podemos ter pulso. Confiar. E ser diferentes ou iguais a nós próprios. E quando o adeus é eternamente um até já, “com uma complicação tremenda e tão simples ao mesmo tempo”, sei cá do fundo que a definição de amigo se confunde contigo.


Feliz Natal João. Até já!

22 de outubro de 2011

Fluxo

Trago o coração na mão, apertado com força, na tremura das minhas últimas forças. Tenho medo que se perca dentro do meu peito. Não quero que bata com força, que tenho medo que o oiçam e percebam que bate ao acaso. Que não abro mão dele. Que é só meu. Que aquilo que é meu é estar só. Comigo e com uma solidão imensa que me acompanha no breu. Neste descompasso dos dias, é tão pequenino. Assusta-se. Afasta-se. Encolhe-se perdido em promessas e na indiferença das derivações do curso da história. Não sabe ser peregrino da razão deste tempo. Não está pronto para bater noutras mãos. É só.

11 de setembro de 2011

11 de Setembro




Para isto "caminha" a humanidade, a passos largos para o abismo.

Pedro Cabrita Reis – One after another, a few silent steps


E é assim, logo à entrada, um pé atrás do outro, em passos silenciosos. Esta coisa dos museus é mesmo assim. Ou isso ou há reprimenda vestida de segurança ou um esgar de desprezo perfumado a Yves Saint Laurent. Muito enfiada lá fui eu à primeira sala onde sou presenteada com quatro paredes iluminadas a lâmpadas fluorescentes, o que nos leva a pensar que o Sr. Cabrita não conhece as lâmpadas economizadoras ou de baixo consumo. Também eram mais caras e não sabemos se porventura o Joe e a sua Cê Vê Éme viabilizariam budget. E depois… também era difícil abrir janelas visto que não as há. Portanto, “True Gardens # 7” (Lisboa, 2011), a contradição entre as dezenas de armações de luz inutilizadas [a Quercus que te perdoe], resultantes de obras destruídas em sucessivos processos de montagem, desmontagem e armazenamento, e o solitário ponto de luz [coitado] que no meio delas se revela, tem uma evidente função metafórica”. Sinto-me esmagada pela minha própria incapacidade em compreender a metáfora. Se calhar era uma alegoria, daí a minha dúvida.
Se nos virarmos para “The Large Self-Portraits, 2005”, já temos uma imagem, quer no sentido lato da palavra quer enquanto figura de estilo. Aí já eu consigo vislumbrar alguma auto-estima com níveis acima dos normais, vá, aquele amor-próprio. Pronto, é um egocêntrico de merda que, se ainda fosse bonito, seria aprazível ao olhar. Naquela altura desejei honestamente ser um dos seus cegos e estar bem longe, lá em Praga.
Então ceguei nas seguintes obras. Mais tarde cheguei a um “espaço privilegiado de confronto entre materiais ricos e pobres: o alumínio cruza-se com a madeira ou instalações eléctricas”. Finalmente Sr. Cabrita! Agora fez-me lembrar um dos muitos bairros de barracas na Amadora. Isso é um pouco transversal a todos, é palpável, vê-se, mas não se perde tempo com isso porque não é arte. Bom, nesses casos há francas melhorias em relação ao seu trabalho, até porque eles conseguem ter água potável. Duvido, no entanto, que seja um espaço privilegiado para eles.
Mas o plinto, o plinto sim… a “colecção de portas velhas” que integram “um duplo plinto – um plinto para coisa nenhuma”. Aí está, para coisa nenhuma. Bem como a pilha de portas a um canto da sala. Também levam a “coisa nenhuma”. Mas, no fundo, estas “formas escultóricas surgem como modelos de algo que não identificamos de imediato. Constroem-se a partir de módulos idênticos entre si, ocupam de modo disperso mas ordenado o espaço e determinam os circuitos dos visitantes da sala”. Realmente eu não consegui identificar de imediato esse seu algo que é só seu mesmo. Nem de imediato nem agora. E duvido que futuramente vá perder tempo com isso. Lamento que aquilo me obrigasse a uma gincana determinada por si, eu que queria ir direitinha à porta de saída.
Agradeço ao Sr. João Pinharada por ter tentado ajudar-me a mim e aos restantes visitantes, mais argutos que eu, certamente, com as citações que usei, retiradas da brochura respeitante à exibição. Agradeço ao Sr. Pedro Cabrita Reis que tenha rejeitado a adopção das regras do acordo Ortográfico em vigor. Ao menos aqui estamos de acordo. Obrigado Joe, a exposição é apenas temporária.

3 de junho de 2011

1 de Junho de 2011

Pai,

das minhas coisas de criança, lembro-me de muitas. Lembro-me de a mãe me chamar à cozinha para ler a carta do pai que estava longe. Que dizia que eu tinha que me portar bem e ser boa. Fizeste-me um desenho em que me davas a mão, a mim e à Carla Chica. Nessa noite chorei muito, vexada por não me portar como o meu pai me ensinou. E tentei com muita força ser melhor. Pegavas-me ao colo só com um braço e apontavas com o indicador para os pássaros, a cor das árvores, a nora no rio Alva. E eu olhava sempre com os olhos muito abertos como se assim absorvesse mais, a tentar acompanhar-te, sempre muito atenta e cheia de um respeito que dificilmente me cabe no peito. Os grilos apanhavam-se com palhinhas, muitos, muitos. E nós, pé ante pé, agachados, ouvido bem abertos, no Mont’Alto, ao cair da tarde, o sol laranja, lindo, reflectido na casca do pinheiro e a irromper por entre as folhas e as mimosas tornava o momento gracioso como uma gravura. Gostava de te dar a mão e saltar de rocha em rocha na Ericeira, lapas e rochas socadas pala força das ondas, salpicos salgados de mar e um cheiro a maresia, o ar húmido e pesado, gaivotas em terra na Primavera. E as festas na cabeça para eu adormecer e afastar qualquer mal. Um xi-coração para dizer adeus, “olho vivo e pé ligeiro”.
E um dia, sem reparar nisso, levanto a cabeça dos livros, estou crescida. Sou uma mulher com responsabilidades e um emprego. Carrego as obrigações do mundo nos alicerces, sei mais, tenho mais. Para onde foi o sonho? Quando é que brincar deixou de fazer parte do horário? Onde deixei a gargalhada fácil? Algures num trecho da “Machadinha”.
Hoje, só hoje, leva-me outra vez ao colo. Porque no fundo, no fundo, ainda sou a menina do meu Pai.

Beijinhos Pai. Tem Um feliz dia!

Da tua filha,
Ana Margarida Neves