1 de janeiro de 2015

Pôr-do-sol visto da minha janela



Há algo de amargo neste fim que tarda na boca e no peito. O cenário muito desenquadrado. Miopias do coração. Não vejo o fim que já terminou. Mas também não sei onde começa o início. Sei que tracei o futuro e deixei-te pendente no ponto final das minhas palavras. Equilibrado nessa bolinha preta que é um ponto final. Ainda tentaste controlá-la por algum tempo. Mas magoaste-te no último passo de malabarismo. Depois de tudo, já te abracei tantas vezes, deitei a tua cabeça no meu colo e disse-te que tudo ia correr bem. Despenteei-te a melena só para a ordenar de novo. E falei-te do futuro com certezas e determinação. Parecia eu e tudo. E parecias tu, sossegado no embalo dos meus braços. Tranquilos. Mas quando abro os olhos e tento ver o enquadramento, procuro-te dentro da moldura e não estás. Fui eu que desenhei outra coisa. Onde só se vê o sol ao fundo e o meu pé à frente do outro. Tu não estás. Ficaste atrás a dizer-me um adeus muito contido. Ficaste pequenino à medida que eu avancei. Guardaste contigo os meus dias seguros, os meus passos em ziguezague, a minha forma estranha de misturar o açúcar no café e o pouco jeito que tenho para sorrir quando acordo. Promete que um dia abres essa caixinha e deixas que voltem para mim. Para que eu possa ser eu só com a nossa doce memória. A saudade é um sentimento que dói mais que os outros todos. Mais que o amor. Provavelmente irias contrariar-me. Mas eu sei que assim é. A saudade só existe porque o passado foi bom e porque não pode voltar-se atrás e remendar-se. O remendo é sempre uma aproximação esquisita ao antigo, ao primeiro instante. Antigamente, quando tínhamos os relógios acertados, os ponteiros agiam a favor do tempo. Eu corri. Corrijo. Fugi. E o tempo parou, suspenso num momento voltado para dentro, para o mais fundo de mim. Ninguém sabe onde ele fica e eu fechei-te a porta. Não estou preparada para a abrir. Quero ficar em casa só, mercê do silêncio das paredes que ergui. A cada gaveta que abro vejo uma falha na construção.. Descubro que não sou perfeita e que nem sempre sei fazer o bem, como eu via nos desenhos animados. E eu que julguei que nunca mais me esquecia. Gostar de ti não chega para te dar a chave. Não agora. Agora que eu acho que posso gostar de mim aqui dentro, com as minhas gavetas cheias de mim, bonita ou feia. Com aquela janela onde vejo o sol. E sei que posso pôr um pé à frente do outro, sem te dar a mão. Mas a sorrir-te. Na eternidade que só a ternura permite.

16 de setembro de 2014

Máscara


A face do medo

É suja, é grotesca

Agarra-se a estranhos

Numa sucção dantesca

 

Diz mal de quem teve

Do próximo e do que há-de vir

Não é mais do que o vazio

Que antevê no porvir

 

Maltrata, estiliza, goza

Inveja, cobra e desdenha

Sem fraque ou farpela

Que lhe justifique a façanha

 

Faz gaúdio do pouco que vale

Sobe o queixo de fraca figura

Arreganha o sobrolho,

Cospe na fervura

 

Não põe a mão no peito

Não contesta o que projecta

Não sabe que o outro

Lhe adivinha a intenção abjecta

 

Por isso definha

Numa vida de existir

A caminhar, a respirar

A sofrer, a extinguir

 

O circo já terminou,

Os palhaços abandonaram a cena

O medo ficou sozinho

Num futuro que dá pena

 

E das cinzas do fim dos dias

Ergue-se a justiça devida

A face do medo

Foi quem perdeu a vida

4 de março de 2014

Manual de sobrevivência para pessoas nascidas em 1985 (ou apenas pessoas educadas normalmente nascidas em qualquer ano, ou até pessoas com dois dedos de testa, inadaptados, enfim, como na astrologia, enfiar-se-á alguma quantidade de carapuça)



1.       Acenar positivamente com a cabeça. Daremos a ideia de que estamos de acordo, somos coniventes. Podemos eventualmente traçar uma obliquidade no sobrolho e esgalhar um sorriso de boca fechada, mona-lisa mas menos complacente. Assim, passaremos a imagem de que aceitamos a opinião do outro, gostamos dela e alçaremos o ânus para que a mesma proceda à introdução de todo tipo de formas de compadrio.
2.       Parecer atarefado. Andar com folhas de um lado para o outro. Suspirar. Escrever muitas coisas em post-its e afixar em torno do computador. Suspirar com mais afinco. Fazer telefonemas. Preencher agendas. A pro-actividade é fundamental. Mas só quando se dá o terceiro suspiro e se diz “Boa noite Adélia. Até amanhã!”, enquanto se olha para o relógio e se verifica que foi o penúltimo empregado a sair do escritório. O último tem de ser o chefe, que assistiu com denotado orgulho a esta azáfama. Na verdade, a última é a Adélia, que limpa o chão e abre umas gavetas aleatoriamente.
3.       A estatística é importante. Se a colega foi fumar três vezes lá fora, só se pode ir duas.
Penúltimo a sair. Menos pausas para fumar, a um nível significância de 5%, isto porque a colega pode ter-se esquecido do maço em casa.
4.       Mandar e-mails. Muitos. Todos eles com o devido cumprimento. Bom dia se for de manhã. Boa tarde, caso já tenha almoçado. Boa noite, caso ainda esteja no escritório com a Adélia. Desaconselho vivamente o “olá”. Tira todo o espaço que tem de haver entre duas pessoas de bem – profissionais na boa execução da sua profissão tão profissional, cheia de profissionalismo. Em todos eles a pessoa subscreve-se, com elevada reverência, apreciação, admiração, consideração. Pronto, bajulação. Mas a não execução deste ponto invalida o ponto número 1 e deita por terra o seu sucesso no tecido empresarial.
5.       Estar sempre disponível. Presente. Com a resposta certa na ponta da língua. Se não souber o que dizer, atire um simples  “compreendo”, “estou a ver” ou “tratarei deste assunto ainda hoje”, seguidos de “ah, mas iremos atingir os targets” ou ainda “vou já proceder à execução do balancete”.
6.       Sorrir. Porque todo o seu ser deve estremecer com as piadas de um superior. Essas vibrações serão passadas através da atmosfera ao seu chefe, abrindo o quinto chakra, e isso só pode ser bom. O universo alinha-se para que seja um deles, com eles, na unidade do tolo santo.
7.       Não reivindicar. Mais vale uma pomba na mão do que duas a voar. Tem que pagar a casa e alimentar-se, não se esqueça. Se perde o emprego, volta para casa dos seus pais e tem que partilhar uma cama com o Pantufa, que entretanto dorme na sala dos arrumos e de passar-a-ferro.
8.       Aifoune-se! Dedilhar com o indicador confere um ar inteligente, de pessoa que domina os gadgets como as tendências da bolsa. E pode aceder em tempo real aos e-mails, conseguindo atingir facilmente o ponto 4.
9.       Agradecer tudo. Por acordar todos os dias, por respirar o ar da sua empresa, por fazer parte, por poder ter uma chapa identificativa com o seu nome, um uniforme, picar o ponto. É um orgulho ímpar.
10.   Estar convictamente feliz por amanhã ser igual sem que tenha feito nada para mudar. Não vale a pena. Está tudo certíssimo. Obrigada. Suspiro. Subscrevo-me com a mais elevada (ou enlevada, se quiser ir mais longe) consideração. Suspiro mais audível. Combinado e sempre às ordens. Disponha. Boa noite. Adeus Adélia. Hashtag chegada a casa, hashtag dia de merda hashtag balde de gelado a ver o meu glorioso.

4 de janeiro de 2014

Revisão não-tão escatológica de 2013



Este ano não houve festa. Pesam-me os destilados variados, ensurdecem-me as tampas das panelas. De repente, as pessoas parecem-me símios num projecto laboratorial. Condicionamento operante. Se bateres as tampas com força atiram-te 12 passas. Se não, levas um choque eléctrico. Bem vistas as coisas, não era má ideia. Estas bocas escancaradas de batons vermelhos. Saias de lantejoulas, curtas, a antever coitos interrompidos de última hora. Gargalhadas de somos-bué-felizes-e-gostamos-de-o-mostrar-ao-mesmo-tempo-que-cantamos-anselmo-ralph-mesmo-sem-saber-a-letra. Este amargo de boca. Esta auto-comiseração. Isto tudo faz-me mal. Exulta-me despautérios. Dos feios e mal intencionados. Do tipo: “Cala-te sua otária de merda, andas a mais no mundo, ainda por cima, de lantejoulas!”. Percebem? Ela é só uma otária de merda, não tem culpa de ter mau gosto e ancas do tamanho da proa de uma fragata. 

Estou tão cansada de dizer que faço, de fazer o que dizem, de dizer por dizer e de fazer porque sim. “Bom ano!” (com o sorriso cordial que o aparelho me deu, valha-me isso). As provas de resistência a que a simpatia me obriga… 

Integra-te, sê melhor, pega nas pedras do caminho e faz um castelinho com a tua vida que é a tua própria empresa e não pode falir.

Tenho arritmias que tentam travar a sordidez da minha solidão. A gaguez de um coração que não sabe dizer que não. Mas também não quer dizer que sim. Não assume. Não quer sentir. De costas voltadas com os amores mal amados. Não quero ser esta gente. Toda eu superficial e moldada às necessidades da efeméride. 

Vi uma fotografia minha. Sou bonita. Alta. Pareço feliz. A brindar e tudo. 

Brindei secretamente a mim e à negação da falência tão óbvia desta geração, ainda que toda eu estremeça perante o monstro do futuro.


12 de agosto de 2013

Doação de coração



Não aguento o meu próprio coração no peito. Removam-mo. Cirurgicamente, com anestesia geral. Que só acorde no tempo das boas-novas. Doem-no a um malvado que tenha em obra terrena imperdoáveis actos. Peguem no meu corpo e devolvam-no à cidade, despercebido entre os olhares rectos no chão. 
Deixem-me viver alheia do que se passa, a tropeçar no pó da amargura. Ou então devolvam-me o compasso do coração, pautem-me de amor. Que eu componho a vida mais cheia.

27 de janeiro de 2013

Redacções


Introdução

“Que hei-de eu fazer, eu tão nova e desamparada quando o amor me entra de repente p’la porta da frente e fica a porta escancarada” (“Às vezes o amor” – Sérgio Godinho)

Desenvolvimento

Não quero mais das manhãs que a tua almofada amarfanhada de reviravoltas, lutas de um guerreiro de boné a três quartos, de punhos cerrados e gritos da discórdia entre berlindes e Playmobil. Pousa a cabeça no meu peito. Respira fundo. Acorda devagar, abre os olhos devagar. Que este mundo girou. Tem lâminas de barbear, sapatos bem engraxados e gravatas aprumadas. Não saímos daqui. Podemos fazer uma tenda de lençóis. Damos as mãos num pacto secreto. Juro. Os meus dedos conhecem o labirinto do teu cabelo tortuoso, viajam enquanto te olho e atento que esse mundo é ainda maior que este. Cabemos nós e os outros, a paciência e as virtudes dos inocentes. Cabem sonhos inteiros aquém Tejo. O tumulto, os fantasmas de ser grande já amanhã, ou ainda hoje. Ainda não. Não largues a minha mão durante a viagem. Que a vida vai bater-nos de frente, com força. Sem preparações. Sem colete à prova de balas. A viagem vai doer, tirar-nos as certezas, atirar-nos à rua, sem aspas. Abriga o teu verbo ser no meu coração.

Conclusão

Gosto de ti. Às vezes é fácil e outras difícil. Pesar o globo pelo verde dos teus olhos.


29 de novembro de 2012

Ainda não temos fotografias


Deixaste os ecos das gargalhadas em algum azulejo da cozinha, onde te quis prender com o cheiro do pimentão doce. Espero que saibas que não gosto de cozinhar. Gosto só que alguma parte do teu dia fique a meu cargo. Tenho por hábito observar-te as introspecções. E tu finges tão mal que não sabes que estou a olhar. Não te preocupes porque eu não sei mesmo no que pensas. Estás detido lá longe numa das tuas inúmeras vidas paralelas. Não gosto. Eu quero interceptar pelo menos uma porque tenho para mim que esse ponto me dá um sentido à vida. Um novo. Que não precise de indicações da razão. Às vezes dou-te a mão e sei que podia levar-nos onde tu quisesses. Que o que cabe no verde dos teus olhos é tudo aquilo que diz que sim à verdade. Estou cheia de certezas tolas... E eu juro que não sabia. E não quis. Não apareci de propósito, não engendrei um plano. Mas desejei que me ouvisses uma vez e que decidisses que podias gostar um bocadinho de mim. Temi que o miúdo que conheci, de cabelo à banda, vizinho de comboios, fosse o que todos pensavam saber. Mas quis fazer parte da tua minoria. Vota em mim. Eu prometo que vou fazer o melhor que puder. Mesmo quando o nosso entendimento não molda a mesma ideia e ficamos em silêncio, juntos, mas sem união. E quando o tempo não nos concede mais que momentos dispersos. 
Vou agarrar neles e colar uma fotografia bonita.