4 de março de 2014

Manual de sobrevivência para pessoas nascidas em 1985 (ou apenas pessoas educadas normalmente nascidas em qualquer ano, ou até pessoas com dois dedos de testa, inadaptados, enfim, como na astrologia, enfiar-se-á alguma quantidade de carapuça)



1.       Acenar positivamente com a cabeça. Daremos a ideia de que estamos de acordo, somos coniventes. Podemos eventualmente traçar uma obliquidade no sobrolho e esgalhar um sorriso de boca fechada, mona-lisa mas menos complacente. Assim, passaremos a imagem de que aceitamos a opinião do outro, gostamos dela e alçaremos o ânus para que a mesma proceda à introdução de todo tipo de formas de compadrio.
2.       Parecer atarefado. Andar com folhas de um lado para o outro. Suspirar. Escrever muitas coisas em post-its e afixar em torno do computador. Suspirar com mais afinco. Fazer telefonemas. Preencher agendas. A pro-actividade é fundamental. Mas só quando se dá o terceiro suspiro e se diz “Boa noite Adélia. Até amanhã!”, enquanto se olha para o relógio e se verifica que foi o penúltimo empregado a sair do escritório. O último tem de ser o chefe, que assistiu com denotado orgulho a esta azáfama. Na verdade, a última é a Adélia, que limpa o chão e abre umas gavetas aleatoriamente.
3.       A estatística é importante. Se a colega foi fumar três vezes lá fora, só se pode ir duas.
Penúltimo a sair. Menos pausas para fumar, a um nível significância de 5%, isto porque a colega pode ter-se esquecido do maço em casa.
4.       Mandar e-mails. Muitos. Todos eles com o devido cumprimento. Bom dia se for de manhã. Boa tarde, caso já tenha almoçado. Boa noite, caso ainda esteja no escritório com a Adélia. Desaconselho vivamente o “olá”. Tira todo o espaço que tem de haver entre duas pessoas de bem – profissionais na boa execução da sua profissão tão profissional, cheia de profissionalismo. Em todos eles a pessoa subscreve-se, com elevada reverência, apreciação, admiração, consideração. Pronto, bajulação. Mas a não execução deste ponto invalida o ponto número 1 e deita por terra o seu sucesso no tecido empresarial.
5.       Estar sempre disponível. Presente. Com a resposta certa na ponta da língua. Se não souber o que dizer, atire um simples  “compreendo”, “estou a ver” ou “tratarei deste assunto ainda hoje”, seguidos de “ah, mas iremos atingir os targets” ou ainda “vou já proceder à execução do balancete”.
6.       Sorrir. Porque todo o seu ser deve estremecer com as piadas de um superior. Essas vibrações serão passadas através da atmosfera ao seu chefe, abrindo o quinto chakra, e isso só pode ser bom. O universo alinha-se para que seja um deles, com eles, na unidade do tolo santo.
7.       Não reivindicar. Mais vale uma pomba na mão do que duas a voar. Tem que pagar a casa e alimentar-se, não se esqueça. Se perde o emprego, volta para casa dos seus pais e tem que partilhar uma cama com o Pantufa, que entretanto dorme na sala dos arrumos e de passar-a-ferro.
8.       Aifoune-se! Dedilhar com o indicador confere um ar inteligente, de pessoa que domina os gadgets como as tendências da bolsa. E pode aceder em tempo real aos e-mails, conseguindo atingir facilmente o ponto 4.
9.       Agradecer tudo. Por acordar todos os dias, por respirar o ar da sua empresa, por fazer parte, por poder ter uma chapa identificativa com o seu nome, um uniforme, picar o ponto. É um orgulho ímpar.
10.   Estar convictamente feliz por amanhã ser igual sem que tenha feito nada para mudar. Não vale a pena. Está tudo certíssimo. Obrigada. Suspiro. Subscrevo-me com a mais elevada (ou enlevada, se quiser ir mais longe) consideração. Suspiro mais audível. Combinado e sempre às ordens. Disponha. Boa noite. Adeus Adélia. Hashtag chegada a casa, hashtag dia de merda hashtag balde de gelado a ver o meu glorioso.

4 de janeiro de 2014

Revisão não-tão escatológica de 2013



Este ano não houve festa. Pesam-me os destilados variados, ensurdecem-me as tampas das panelas. De repente, as pessoas parecem-me símios num projecto laboratorial. Condicionamento operante. Se bateres as tampas com força atiram-te 12 passas. Se não, levas um choque eléctrico. Bem vistas as coisas, não era má ideia. Estas bocas escancaradas de batons vermelhos. Saias de lantejoulas, curtas, a antever coitos interrompidos de última hora. Gargalhadas de somos-bué-felizes-e-gostamos-de-o-mostrar-ao-mesmo-tempo-que-cantamos-anselmo-ralph-mesmo-sem-saber-a-letra. Este amargo de boca. Esta auto-comiseração. Isto tudo faz-me mal. Exulta-me despautérios. Dos feios e mal intencionados. Do tipo: “Cala-te sua otária de merda, andas a mais no mundo, ainda por cima, de lantejoulas!”. Percebem? Ela é só uma otária de merda, não tem culpa de ter mau gosto e ancas do tamanho da proa de uma fragata. 

Estou tão cansada de dizer que faço, de fazer o que dizem, de dizer por dizer e de fazer porque sim. “Bom ano!” (com o sorriso cordial que o aparelho me deu, valha-me isso). As provas de resistência a que a simpatia me obriga… 

Integra-te, sê melhor, pega nas pedras do caminho e faz um castelinho com a tua vida que é a tua própria empresa e não pode falir.

Tenho arritmias que tentam travar a sordidez da minha solidão. A gaguez de um coração que não sabe dizer que não. Mas também não quer dizer que sim. Não assume. Não quer sentir. De costas voltadas com os amores mal amados. Não quero ser esta gente. Toda eu superficial e moldada às necessidades da efeméride. 

Vi uma fotografia minha. Sou bonita. Alta. Pareço feliz. A brindar e tudo. 

Brindei secretamente a mim e à negação da falência tão óbvia desta geração, ainda que toda eu estremeça perante o monstro do futuro.


12 de agosto de 2013

Doação de coração



Não aguento o meu próprio coração no peito. Removam-mo. Cirurgicamente, com anestesia geral. Que só acorde no tempo das boas-novas. Doem-no a um malvado que tenha em obra terrena imperdoáveis actos. Peguem no meu corpo e devolvam-no à cidade, despercebido entre os olhares rectos no chão. 
Deixem-me viver alheia do que se passa, a tropeçar no pó da amargura. Ou então devolvam-me o compasso do coração, pautem-me de amor. Que eu componho a vida mais cheia.

27 de janeiro de 2013

Redacções


Introdução

“Que hei-de eu fazer, eu tão nova e desamparada quando o amor me entra de repente p’la porta da frente e fica a porta escancarada” (“Às vezes o amor” – Sérgio Godinho)

Desenvolvimento

Não quero mais das manhãs que a tua almofada amarfanhada de reviravoltas, lutas de um guerreiro de boné a três quartos, de punhos cerrados e gritos da discórdia entre berlindes e Playmobil. Pousa a cabeça no meu peito. Respira fundo. Acorda devagar, abre os olhos devagar. Que este mundo girou. Tem lâminas de barbear, sapatos bem engraxados e gravatas aprumadas. Não saímos daqui. Podemos fazer uma tenda de lençóis. Damos as mãos num pacto secreto. Juro. Os meus dedos conhecem o labirinto do teu cabelo tortuoso, viajam enquanto te olho e atento que esse mundo é ainda maior que este. Cabemos nós e os outros, a paciência e as virtudes dos inocentes. Cabem sonhos inteiros aquém Tejo. O tumulto, os fantasmas de ser grande já amanhã, ou ainda hoje. Ainda não. Não largues a minha mão durante a viagem. Que a vida vai bater-nos de frente, com força. Sem preparações. Sem colete à prova de balas. A viagem vai doer, tirar-nos as certezas, atirar-nos à rua, sem aspas. Abriga o teu verbo ser no meu coração.

Conclusão

Gosto de ti. Às vezes é fácil e outras difícil. Pesar o globo pelo verde dos teus olhos.


29 de novembro de 2012

Ainda não temos fotografias


Deixaste os ecos das gargalhadas em algum azulejo da cozinha, onde te quis prender com o cheiro do pimentão doce. Espero que saibas que não gosto de cozinhar. Gosto só que alguma parte do teu dia fique a meu cargo. Tenho por hábito observar-te as introspecções. E tu finges tão mal que não sabes que estou a olhar. Não te preocupes porque eu não sei mesmo no que pensas. Estás detido lá longe numa das tuas inúmeras vidas paralelas. Não gosto. Eu quero interceptar pelo menos uma porque tenho para mim que esse ponto me dá um sentido à vida. Um novo. Que não precise de indicações da razão. Às vezes dou-te a mão e sei que podia levar-nos onde tu quisesses. Que o que cabe no verde dos teus olhos é tudo aquilo que diz que sim à verdade. Estou cheia de certezas tolas... E eu juro que não sabia. E não quis. Não apareci de propósito, não engendrei um plano. Mas desejei que me ouvisses uma vez e que decidisses que podias gostar um bocadinho de mim. Temi que o miúdo que conheci, de cabelo à banda, vizinho de comboios, fosse o que todos pensavam saber. Mas quis fazer parte da tua minoria. Vota em mim. Eu prometo que vou fazer o melhor que puder. Mesmo quando o nosso entendimento não molda a mesma ideia e ficamos em silêncio, juntos, mas sem união. E quando o tempo não nos concede mais que momentos dispersos. 
Vou agarrar neles e colar uma fotografia bonita. 

23 de dezembro de 2011

““Vou fazer algo inédito” disseste tu...”

E fiz. Disse que sim. Que podíamos ser dois a pensar o mesmo. A ter ideias, a discutir mundos, a rir do tempo. Deste tempo de brevidades. E foi de repente. Como as revoluções. Feito de causas e ímpetos. Que as rotinas corroem o pouco de humanos que temos. Podemos ter pulso. Confiar. E ser diferentes ou iguais a nós próprios. E quando o adeus é eternamente um até já, “com uma complicação tremenda e tão simples ao mesmo tempo”, sei cá do fundo que a definição de amigo se confunde contigo.


Feliz Natal João. Até já!

22 de outubro de 2011

Fluxo

Trago o coração na mão, apertado com força, na tremura das minhas últimas forças. Tenho medo que se perca dentro do meu peito. Não quero que bata com força, que tenho medo que o oiçam e percebam que bate ao acaso. Que não abro mão dele. Que é só meu. Que aquilo que é meu é estar só. Comigo e com uma solidão imensa que me acompanha no breu. Neste descompasso dos dias, é tão pequenino. Assusta-se. Afasta-se. Encolhe-se perdido em promessas e na indiferença das derivações do curso da história. Não sabe ser peregrino da razão deste tempo. Não está pronto para bater noutras mãos. É só.