Oito a Oitenta...o extremo, a sequência, a reviravolta, o princípio e o fim e tudo o que está no meio.
28 de julho de 2012
23 de dezembro de 2011
““Vou fazer algo inédito” disseste tu...”
E fiz. Disse que sim. Que podíamos ser dois a pensar o mesmo. A ter ideias, a discutir mundos, a rir do tempo. Deste tempo de brevidades. E foi de repente. Como as revoluções. Feito de causas e ímpetos. Que as rotinas corroem o pouco de humanos que temos. Podemos ter pulso. Confiar. E ser diferentes ou iguais a nós próprios. E quando o adeus é eternamente um até já, “com uma complicação tremenda e tão simples ao mesmo tempo”, sei cá do fundo que a definição de amigo se confunde contigo. Feliz Natal João. Até já!
22 de outubro de 2011
Fluxo
Trago o coração na mão, apertado com força, na tremura das minhas últimas forças. Tenho medo que se perca dentro do meu peito. Não quero que bata com força, que tenho medo que o oiçam e percebam que bate ao acaso. Que não abro mão dele. Que é só meu. Que aquilo que é meu é estar só. Comigo e com uma solidão imensa que me acompanha no breu. Neste descompasso dos dias, é tão pequenino. Assusta-se. Afasta-se. Encolhe-se perdido em promessas e na indiferença das derivações do curso da história. Não sabe ser peregrino da razão deste tempo. Não está pronto para bater noutras mãos. É só.
11 de setembro de 2011
Pedro Cabrita Reis – One after another, a few silent steps

E é assim, logo à entrada, um pé atrás do outro, em passos silenciosos. Esta coisa dos museus é mesmo assim. Ou isso ou há reprimenda vestida de segurança ou um esgar de desprezo perfumado a Yves Saint Laurent. Muito enfiada lá fui eu à primeira sala onde sou presenteada com quatro paredes iluminadas a lâmpadas fluorescentes, o que nos leva a pensar que o Sr. Cabrita não conhece as lâmpadas economizadoras ou de baixo consumo. Também eram mais caras e não sabemos se porventura o Joe e a sua Cê Vê Éme viabilizariam budget. E depois… também era difícil abrir janelas visto que não as há. Portanto, “True Gardens # 7” (Lisboa, 2011), a contradição entre as dezenas de armações de luz inutilizadas [a Quercus que te perdoe], resultantes de obras destruídas em sucessivos processos de montagem, desmontagem e armazenamento, e o solitário ponto de luz [coitado] que no meio delas se revela, tem uma evidente função metafórica”. Sinto-me esmagada pela minha própria incapacidade em compreender a metáfora. Se calhar era uma alegoria, daí a minha dúvida.
Se nos virarmos para “The Large Self-Portraits, 2005”, já temos uma imagem, quer no sentido lato da palavra quer enquanto figura de estilo. Aí já eu consigo vislumbrar alguma auto-estima com níveis acima dos normais, vá, aquele amor-próprio. Pronto, é um egocêntrico de merda que, se ainda fosse bonito, seria aprazível ao olhar. Naquela altura desejei honestamente ser um dos seus cegos e estar bem longe, lá em Praga.
Então ceguei nas seguintes obras. Mais tarde cheguei a um “espaço privilegiado de confronto entre materiais ricos e pobres: o alumínio cruza-se com a madeira ou instalações eléctricas”. Finalmente Sr. Cabrita! Agora fez-me lembrar um dos muitos bairros de barracas na Amadora. Isso é um pouco transversal a todos, é palpável, vê-se, mas não se perde tempo com isso porque não é arte. Bom, nesses casos há francas melhorias em relação ao seu trabalho, até porque eles conseguem ter água potável. Duvido, no entanto, que seja um espaço privilegiado para eles.
Mas o plinto, o plinto sim… a “colecção de portas velhas” que integram “um duplo plinto – um plinto para coisa nenhuma”. Aí está, para coisa nenhuma. Bem como a pilha de portas a um canto da sala. Também levam a “coisa nenhuma”. Mas, no fundo, estas “formas escultóricas surgem como modelos de algo que não identificamos de imediato. Constroem-se a partir de módulos idênticos entre si, ocupam de modo disperso mas ordenado o espaço e determinam os circuitos dos visitantes da sala”. Realmente eu não consegui identificar de imediato esse seu algo que é só seu mesmo. Nem de imediato nem agora. E duvido que futuramente vá perder tempo com isso. Lamento que aquilo me obrigasse a uma gincana determinada por si, eu que queria ir direitinha à porta de saída.
Agradeço ao Sr. João Pinharada por ter tentado ajudar-me a mim e aos restantes visitantes, mais argutos que eu, certamente, com as citações que usei, retiradas da brochura respeitante à exibição. Agradeço ao Sr. Pedro Cabrita Reis que tenha rejeitado a adopção das regras do acordo Ortográfico em vigor. Ao menos aqui estamos de acordo. Obrigado Joe, a exposição é apenas temporária.
3 de junho de 2011
1 de Junho de 2011
Pai,
das minhas coisas de criança, lembro-me de muitas. Lembro-me de a mãe me chamar à cozinha para ler a carta do pai que estava longe. Que dizia que eu tinha que me portar bem e ser boa. Fizeste-me um desenho em que me davas a mão, a mim e à Carla Chica. Nessa noite chorei muito, vexada por não me portar como o meu pai me ensinou. E tentei com muita força ser melhor. Pegavas-me ao colo só com um braço e apontavas com o indicador para os pássaros, a cor das árvores, a nora no rio Alva. E eu olhava sempre com os olhos muito abertos como se assim absorvesse mais, a tentar acompanhar-te, sempre muito atenta e cheia de um respeito que dificilmente me cabe no peito. Os grilos apanhavam-se com palhinhas, muitos, muitos. E nós, pé ante pé, agachados, ouvido bem abertos, no Mont’Alto, ao cair da tarde, o sol laranja, lindo, reflectido na casca do pinheiro e a irromper por entre as folhas e as mimosas tornava o momento gracioso como uma gravura. Gostava de te dar a mão e saltar de rocha em rocha na Ericeira, lapas e rochas socadas pala força das ondas, salpicos salgados de mar e um cheiro a maresia, o ar húmido e pesado, gaivotas em terra na Primavera. E as festas na cabeça para eu adormecer e afastar qualquer mal. Um xi-coração para dizer adeus, “olho vivo e pé ligeiro”.
E um dia, sem reparar nisso, levanto a cabeça dos livros, estou crescida. Sou uma mulher com responsabilidades e um emprego. Carrego as obrigações do mundo nos alicerces, sei mais, tenho mais. Para onde foi o sonho? Quando é que brincar deixou de fazer parte do horário? Onde deixei a gargalhada fácil? Algures num trecho da “Machadinha”.
Hoje, só hoje, leva-me outra vez ao colo. Porque no fundo, no fundo, ainda sou a menina do meu Pai.
Beijinhos Pai. Tem Um feliz dia!
Da tua filha,
Ana Margarida Neves
Pai,
das minhas coisas de criança, lembro-me de muitas. Lembro-me de a mãe me chamar à cozinha para ler a carta do pai que estava longe. Que dizia que eu tinha que me portar bem e ser boa. Fizeste-me um desenho em que me davas a mão, a mim e à Carla Chica. Nessa noite chorei muito, vexada por não me portar como o meu pai me ensinou. E tentei com muita força ser melhor. Pegavas-me ao colo só com um braço e apontavas com o indicador para os pássaros, a cor das árvores, a nora no rio Alva. E eu olhava sempre com os olhos muito abertos como se assim absorvesse mais, a tentar acompanhar-te, sempre muito atenta e cheia de um respeito que dificilmente me cabe no peito. Os grilos apanhavam-se com palhinhas, muitos, muitos. E nós, pé ante pé, agachados, ouvido bem abertos, no Mont’Alto, ao cair da tarde, o sol laranja, lindo, reflectido na casca do pinheiro e a irromper por entre as folhas e as mimosas tornava o momento gracioso como uma gravura. Gostava de te dar a mão e saltar de rocha em rocha na Ericeira, lapas e rochas socadas pala força das ondas, salpicos salgados de mar e um cheiro a maresia, o ar húmido e pesado, gaivotas em terra na Primavera. E as festas na cabeça para eu adormecer e afastar qualquer mal. Um xi-coração para dizer adeus, “olho vivo e pé ligeiro”.
E um dia, sem reparar nisso, levanto a cabeça dos livros, estou crescida. Sou uma mulher com responsabilidades e um emprego. Carrego as obrigações do mundo nos alicerces, sei mais, tenho mais. Para onde foi o sonho? Quando é que brincar deixou de fazer parte do horário? Onde deixei a gargalhada fácil? Algures num trecho da “Machadinha”.
Hoje, só hoje, leva-me outra vez ao colo. Porque no fundo, no fundo, ainda sou a menina do meu Pai.
Beijinhos Pai. Tem Um feliz dia!
Da tua filha,
Ana Margarida Neves
29 de maio de 2011
O teu filho

Há-de correr em ziguezague pelo campo atrás do rasto de cores das asas das borboletas. Vai apanhá-las e abrir muito os olhos a tentar perceber o movimento frágil das asas, contemplando o mistério da vida entre as mãos. Vai apanhar bichos-da-seda e escondê-los em caixas esburacadas com a ponta de uma caneta, espreitando todos os dias a antever os casulos. Vai fazer desenhos pequenos que vais trocando de mês a mês nas divisórias da carteira. Vai dar aqueles abraços apertados no pescoço e dizer que gosta de ti. Vai cair da bicicleta e chorar muito com a marca no joelho que vai ficar para toda a vida mas que o vai lembrar que no outro dia conseguiu subir ao topo da nespereira e trazer à mãe as melhores nêsperas, as que ainda não foram bicadas pelos pardais.
Vai ler os livros dos Cinco com o chapéu a três quartos, horas a fio, deitado na relva. Vai adormecer nas viagens para Arganil e perguntar se falta muito. Vai partir algumas caixas dos teus CDs e aborrecer-te com “porquês”. Vai levar uma palmada quando atravessar a estrada a correr e chorar com a força da vergonha. Vai virar-te as costas e depois dar-te a mão.
Vai sair da escola contente porque o teste de História correu muito bem. Vai fabricar outros mundos com os amigos porque este nunca vai ser suficiente. Vai sonhar, inventar-se, ordenar o movimento dos astros e do futuro. Sempre com uns grandes olhos de amêndoa a exalar orgulho no Pai.
14 de maio de 2011
Dazed and confused

Agora olha-se, compra-se a imagem, deve assentar bem. Soltam-se suspiros, agarra-se o êxtase em 5 minutos de enlace. Trocam-se ideias e companhia para o jantar. Planeia-se. Sonha-se. Amanhã apercebemo-nos que temos mais que fazer. Há aquele projecto inadiável, o tempo dividido para outras coisas. Temos de dar um tempo. Não és tu, sou eu. Acaba-se. Não se volta a olhar. Entra-se em alívio. Ainda bem que “isto” não foi adiante. Arranjam-se justificações para perceber que afinal fizemos bem. Chora-se. Fuma-se. Remenda-se o coração. Segue-se em frente. Caminha-se sozinho em piloto automático, faz-se o que se tem a fazer. Eu não sei se acredito no amor, naquele forte que leva tudo à frente, que permite que tudo o resto se faça com a leveza dos apaixonados. E reparem na leviandade com que escrevo amor. O amor, com letra minúscula. Porque é um substantivo, afinal. Nomeia aquilo a que os menos nobres de espírito não podem ascender - as pessoas que têm que fazer, que empunham as bandeiras do “amanhã” e se concentram nos prazos. Que é palpável ter um emprego e um projecto de vida. Que é mais atingível do que encontrar “aquela pessoa”. E deixa-se passar o amor ao lado. Onde é que foste? Ainda agora aqui estavas, ia jurar que te senti no fundo do peito. O telemóvel tocou mais que vinte vezes ao dia. Isso era bom sinal, não era?
O amor não pode ser isto.
Poderá encaixar-se esta denominação num tempo em que tudo é descartável? Usa e deita fora. Fabrica-se a imagem daquilo que o outro vai desejar. Há desejo mas mais que isso não que dá trabalho, e depois há o meu trabalho, o verdadeiro. E já é muita coisa para mim que duas ao mesmo tempo fazem-me enxaquecas. Sou muito nova para isto que as hormonas estão em ebulição, hoje és tu e amanhã não sei que o outro também me achou interessante. Olha, amo dois e pronto. Mas isto também não pode ser amor, que se quebra a correspondência de 1 para 1 e entra o “outro” na equação. Às vezes não há outro, só que não resultou. Foi a fórmula errada. Mente-se mais um bocadinho porque se está confuso. Sonhou-se alto, o amor é demais para o que se pode neste momento. Não entraste na minha vida quando devia ser, mas que chatice, nunca acerto nos timings.
Não. O amor não é isto.
O amor é ignorar isto tudo e saber o que é o amor assim que se encontra. É desejar que o amanhã venha sempre “connosco” na equação. É não contabilizar e não planear. Que não se coaduna este querer com fórmulas. É saber que não é todos os dias que “isto” acontece. É não precisar de mais nada senão a certeza de estares aqui. E depois há o resto que ficou tão melhor depois de apareceres. É permissão, confiança, deixar que aconteça, embarcar de olhos fechados. São inúmeras metáforas para te dizer que o amor foi o hipotético futuro que deixámos passar entre os dedos, enquanto ele acontecia mais lento que o resto da nossa vida de obrigações que corria desalmadamente contra a corrente dos nossos sentimentos.
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