19 de julho de 2010

Labirinto

Estendo a mão. Olho. Avalio o risco. O melhor é esticar mais o braço. Vou agarrar. Está quase. Mais à frente um bocadinho. Só mais um minuto. Aguenta. Bicos dos pés. Último esforço.

Escapou. Perdeu-se. Falhei. Desesperança. Cabisbaixa.

Tudo bem? Tudo! Sorriso rasgado. Tudo mal. Tudo errado. Tudo feio.

Mas eu estiquei-me, arrisquei, em esforço. E falhei. Várias vezes.

Eu estou aqui. Relevante. Diferente. Motivada.

Mais uma. Um número. Uma peça.

Descontrai. Para a próxima é melhor. Não é o fim do mundo. Paciência. Este país.

Blá blá blá blá. Larga-me da mão. Tu não sabes.

Porquê? Não chegou. Falhou a astúcia, o estômago, a vontade, a centelha de sorte, a crença divina, o trevo de quatro folhas, a ferradura atrás da porta, a inteligência, a mestria, a facilidade, a puta que o pariu.

Que sim, que não, que vou fazer isto ou aquilo, que planeei. Sei lá, quando calhar, como tiver que ser. Depois. Vais ver. Assim e assado. Logo se vê.

Entendes-me?

É complicado. É complexo. Diferente. Sou como sou e tu não sabes. Não se consegue. Não mostro. Agora não me apetece. Não fales comigo.

Mas pergunta-me. Porque é que não queres saber? Sou invisível?

Mal criada. Rude. Astuta. Orgulhosa.

Triste. Amarga. Melancólica. Resignada. Amorfa.

Estou que não me encontro.

25 de outubro de 2009

Xibalba



Consigo ver-te ainda com um avental de flores debotado. A mesa da cozinha vive de cores e cheiros que nascem à medida que tricotas o almoço. Dás vida a uma espaço, dás-nos vida, nós que observamos atentos a tua mestria, tão humilde, tão doce, tão despida de maldade. As tuas mãos são muito sulcadas como a terra molhada que a chuva fustigou, os dedos grossos como os troncos de uma grande árvore velha, os teus olhos brilhantes e profundos como um sol que não tarda em pôr-se. Como tudo está no seu sítio! Os azulejos são brancos, povoados de quando em vez por frutas pálidas, desvanecidas pelo tempo. Passo os olhos pela máquina de coser, ainda lá estão as linhas e os retalhos de tecido. Um triângulo vermelho onde vais pousando a agulha cansada, um rádio-tv cujos botões encravam por falta de uso, mas que fica aí bem, à esquerda, a dar início a uma prateleira de cacos coloridos. É difícil entrar na cozinha. A cómoda onde puseste as fotografias dos teus netos e os santinhos não deixa margem de manobra. Ali estão também, colados à parede com fita gomada castanha, os desenhos que vamos fazendo, são sonhos nossos que pintam o teu lar, que vão preenchendo com cor os espaços cinzentos da tua vida, quando olhas para eles à noite, a meio da reza. Ensinas-me o melhor truque de todos para fazer pastéis e fico vexada ao saber que ainda hoje não aprendi. Ensinas-me o que sabes, o que aprendeste e o que não sabes mas pensas estar correcto. Nascem em mim valores. “Olha para ti, fica por aí, ouve dos outros, escuta de ti”. O almoço está pronto, são minutos em que te conto o meu dia, tu ouves como se fosse a primeira estória, como se fosse bela. Nunca perdes o fio à meada mas olhas para ver se o prato está a ficar vazio. Tu gostas das minhas palhaçadas, dos meus desenhos, das boas notas dos meus testes e da cor dos meus olhos (são iguais aos da tua mãe), gostas de ser minha avó. Eu gosto da tua comida, do teu avental amaciado pelo tempo, de três ou quatro cabelos que se mexem por detrás da haste dos óculos quando esboças um sorriso, eu gosto de ser tua neta.
Continuava a desenhar-te os meus sonhos, a fazer as minhas macacadas, a recortar pastéis de massa tenra com o copo branco, se pudesse. Não posso fazer essas coisas. Mas vejo-te sempre assim, ainda que não possa dar-te a mão e dizer-te que hoje estive a trabalhar e com sorte consigo tirar a carta este ano. O curso está quase no fim, um dia hei-de casar e ser muito feliz e ter uma casa assim como a tua, cheia de carinho, com uma família que há-de ser sempre aquela, para o bom e o pior.
Não quero ver-te fria, em tons de branco e rosa, resumida a um nome esculpido a escopro e martelo. Prefiro saber que andas por cá como uma névoa transparente e apaziguadora, nas decisões da vida, nos rumos, nas atitudes. Porque tu não és um resumo, és uma estória inacabada que começa agora em mim.

26 de setembro de 2009

Azul

Tu tens um olhar perdido em pormenores, vagueia pelos movimentos das folhas das árvores, ordena nomes aos pássaros, esquiva-se em sorrisos maldosamente doces e gritantes de “nós queremos”. Quando falhas o diálogo em ti, perscrutas os recantos da minha alma, vais ao mais íntimo do meu ser com um olhar, ficas o tempo que queres, usas da minha paciência, abres gavetas e remexes no que é meu. Teu. Nosso. Imaginado. Preciso… mais “necessário” do que “exacto”, mas ambos numa deliciosa dança em que os pares nunca se tocam.
O teu perfil é bonito. Moreno. Olhos sérios, vigilantes, de um castanho chocolate que exalta tudo o que há de travesso em mim. Olho-te sem discrição. É uma invasão sem precedentes. Permites que fique à porta, aceito resignada.
Todo o rosto é afilado. Esculpido em traços sólidos, fortes, rectos. Boca pequena, lábios finos onde adivinho o pecado. E pequei em tudo, com tudo, contigo. Sem remorso ou culpa, quando ela é toda minha.
Gosto de conversar contigo, de encaixar as tuas piadas, copiar os sorrisos e partilhar. É de partilha que se constrói a nossa hesitação.
Cheira a erva, quente, comprimida pelo peso dos nossos corpos cansados, um halo longínquo de café, um céu azul bordado de nuvens que o mancham de laranja. Suspiro. Tu és a perfeita definição de azul.

5 de agosto de 2009

Post só porque sim

Deixa-me dormir em paz. Acorda-me só quando eu tiver descansado tudo, quando o meu corpo já não pedir descanso. Faz de conta que fiz muito no dia anterior e dá-me tréguas.

Eu não sei o acto de contrição, nunca rezo o Pai Nosso, não visito as campas dos meus avós. Mas dá-me só um minuto de paz.

Deixa-me encontrar uma matriz na minha vida, algo a que eu possa dizer: “sim senhor, isto correu como planeei!”. Uma lufada de ar fresco, um atirar a toalha ao chão, um “basta” de viva voz, um pontapé na parede, umas quantas chapadas, de luva branca ou sem ela, mesmo.
Deixa-me só sair pela porta fora. Deixar as pessoas de boca aberta e estar-me cagando. Deixa-me só pisar fora do risco da convenção social.

Deixa-me só poder ir a casa da avó, namorar com ele no jardim e dançar ao fim do dia.

Deixa-me só ter muito em vez de algum que já é bom, ir ali quando me apetece, gastar o dinheiro em coisas, fúteis mas necessárias, vestir uma t-shirt rota e continuar radiante.
Porque é que no dia em que tomei a hóstia não me explicaste, assim em jeito de resposta às minhas preces (podia ser baixinho, que eu não ia dizer a ninguém que me falaste a mim e aos outros não) que não estava liberta dos pecados do mundo? Que o mundo em si é o pecado de não se poder pecar porque este santo e aquele estão de olho e depois não temos uma nuvem no céu, quando formos para o céu, se formos.
E porque é que me fizeste assim tão complicada? E cheia de “ses”? E a ter que ser e fazer, porque toda a gente espera mundos e fundos?
Pois eu tenho fundos que muita gente desconhece. E Tu não existes.

5 de junho de 2009

Nosso


A minha mão desenhava as curvas do teu rosto num calor calmo e aconchegante. A nossa verdade era silenciosa. O quarto enchia-se connosco. Estávamos na foto da parede, no debruado do lençol, na roupa espalhada no chão, no pavio da vela de chocolate, na lírica de “Fast car”, de Tracy Chapman.
Dávamos as mãos, éramos o molde perfeito um do outro. Nunca to disse, mas sabia-me bem o teu silêncio, saber que não era preciso explicar nada. Vamos até a barragem, ver o pôr-do-sol, sentir a pele beijada pelo ar quente de Agosto. Voltamos para um mergulho, depois vamos para casa sem obrigações nenhumas, como tu gostavas. Adorava calcorrear o empedrado. Sei exactamente o cheiro, é um misto de flores, feno seco, animais da terra e fumo que sai das chaminés. O sino toca a cada hora, só o tempo não passa para nós.
Estudávamos os dois, entre bilhetes de amor. Cozinhavas para mim, quase sempre o mesmo, mas sempre bom. Punhas as mudanças com a mão esquerda para não deixares de tocar a minha perna e eu gostava de ouvir as tuas músicas, de que nunca sabes as letras.
Constrói-me frases com cereais de letras, abraça-me para que o amanhã não chegue, apanha-me papoilas na Primavera, segreda-me os teus segredos, pergunta por mim, adivinha-me, partilha comigo.
Mas se tiveres de ir, não adormeças o teu âmago, quem és. Diz-me adeus, mas deixa comigo as memórias das nossas coisas boas e guarda-me um lugar num cantinho do teu coração.

As mãos do meu avô

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade

Manuel Alegre

O meu avô habita a minha memória. Vejo-o recortado pelo verde de Arganil, bengala a domar as rugas da terra, passo meditado, impelido de uma vontade que o cárcere já não condescende à viagem.
Mas vai. Mas alcança.
Sentada ao lado do meu avô, observo-lhe os olhos azuis. Imagino-os tão profundos como as águas de um oceano que um dia ousou rasgar. As mãos do meu avô foram esculpidas pela idade, trazem a força do trabalho e da vontade e ainda desenham algumas palavras no ar, que a viva voz acompanha. “Sabes Ana, uma vez…”. E assim viajamos pelos meandros da memória do meu avô.
E vamos. E alcançamos.
Sei de mundos onde nunca estive, ávida de liberdade a perder de vista. Aprendo o valor do empenho, enlevo-me na dignidade e sabedoria que os olhos do meu avô espelham com uma grandeza tão humilde e desinteressada. E sinto-me de novo pequena, a aprender na escola da vida. Os olhos do meu avô iluminam caminhos e, estória acabada, as mãos repousam numa quietude de missão cumprida, ao mesmo passo que o meu imaginário se inquieta de alegria e vivacidade e o meu coração se enche do orgulho mais terno.
E vou, como ele.
E alcançarei, almejando carregar nas minhas mãos esta bagagem de exemplo e coragem, procurando merecer dizer com a mesma grandeza do meu avô “sou assim: não desanimo, em nada desanimo!”. Porque a história do meu avô semeia o minha estória, que agora estreia.
Porque o meu avô habitará sempre a minha memória

Verdades a Sara

Acredito na veracidade das coisas. Na exactidão tão crua com que acontecem, na simplicidade dos gestos e dos sorrisos, na sinceridade de um sundae de chocolate ou caramelo, conforme o gosto, numa mesa desgastada. Acredito em calcorrear passeios e conversar. Acredito nos laços. Nos fortes. Naqueles que nos ligam como uma família. Acredito que se adivinha mais nos teus olhos que nas tuas palavras. Acredito também que os meus olhos ainda te adivinham por perto, mesmo que seja mentira. Eu fico feliz se acreditar nisso, por isso construo esta verdade cá dentro, edificada como um castelo de cartas mas forte como as amarras.
Os laços… os laços são como as folhas… depende da árvore. A nossa árvore não é de folha caduca. Passamos pela vida ao sabor das quatro estações, às vezes beijadas pelo sol, outras vezes abandonadas à mercê do Inverno, teimando em não cair, agarrando as crenças. E eu acredito em crer!
Sei que hás-de andar por perto caminhando em frente, teimando em não cair. Vejo-te nos recantos das minhas memórias agarrada a uma boneca maior que tu, sempre a rir, a ser uma boa menina, sempre feliz, a debicar em bolos doces, a dizer as primeiras palavras, a chorar, a ser amiga, a fazer birra, a brincar, a ser sincera, a escrever um livro, a entrar na faculdade com o traje académico, a ser boa pessoa, a trabalhar, a crescer, a ser uma grande mulher, a ser quem és. Forte como as amarras. Agarrada à vida como as folhas das árvores.
Eu acredito nos laços, já disse. Preciso de saber que andas por perto e de te saber feliz. Às vezes os laços medem-se pelas acções, quebram-se com palavras, mas os meus laços são fortes como as amarras.
Acredito em ti e preciso de te saber feliz. E é tudo o que preciso para a minha amizade ser uma verdade constante. Porque acredito na veracidade das coisas.

14 de abril de 2009

A caixa de pinho


Este é um texto particularmente difícil para mim, na medida em que os factos que lhe dão corpo moldaram para sempre a minha percepção do mundo e de mim mesma. A efemeridade da vida e dos laços é uma ideia tão francamente decepcionante...


Fiquei parada no centro da sala…minto, no centro da minha incredulidade…Quando olhei para ela, estava numa caixa de pinho, vestida de preto, ironicamente coberta com um véu branco. Não ri, não chorei, parei. Os pensamentos tentaram tecer uma justificação mas formou-se em emaranhado de fios de raiva, tristeza, mágoa e tudo o que me pôs a chorar desalmadamente, no sentido literal do termo. Corri para fora da capela, tentei fugir daquilo tudo. Dali até à Rua [...] eram dois minutos e se eu corresse o mais rápido que conseguisse talvez ela ainda lá estivesse à minha espera com uma costeleta de porco, batatas fritas e alhos na borda do prato, como só a minha avó sabia que eu gostava.


14/01/2004