Dávamos as mãos, éramos o molde perfeito um do outro. Nunca to disse, mas sabia-me bem o teu silêncio, saber que não era preciso explicar nada. Vamos até a barragem, ver o pôr-do-sol, sentir a pele beijada pelo ar quente de Agosto. Voltamos para um mergulho, depois vamos para casa sem obrigações nenhumas, como tu gostavas. Adorava calcorrear o empedrado. Sei exactamente o cheiro, é um misto de flores, feno seco, animais da terra e fumo que sai das chaminés. O sino toca a cada hora, só o tempo não passa para nós.
Estudávamos os dois, entre bilhetes de amor. Cozinhavas para mim, quase sempre o mesmo, mas sempre bom. Punhas as mudanças com a mão esquerda para não deixares de tocar a minha perna e eu gostava de ouvir as tuas músicas, de que nunca sabes as letras.
Constrói-me frases com cereais de letras, abraça-me para que o amanhã não chegue, apanha-me papoilas na Primavera, segreda-me os teus segredos, pergunta por mim, adivinha-me, partilha comigo.
Mas se tiveres de ir, não adormeças o teu âmago, quem és. Diz-me adeus, mas deixa comigo as memórias das nossas coisas boas e guarda-me um lugar num cantinho do teu coração.


